Rodolfo Zavati - 16/12/2011
"Craque o Flamengo faz em casa". Não precisa ser flamenguista para ter ouvido essa frase em algum momento - especialmente em 2011, aniversário de três décadas de um 1981 mágico para os rubro-negros.
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A base daquele time campeão da América e do mundo, aliás, era majoritariamente formada dentro da Gávea. Entre nomes como Zico e Júnior, já consagrados desde a década anterior, também brilhava um refinado defensor de 21 anos, titular mais jovem daquela equipe que bateu o Liverpool: o zagueiro Mozer.
Chegada ao Mengo
José Carlos Nepomuceno Mozer nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de setembro de 1960. Quando jovem, era considerado franzino demais para jogar na defesa, apesar da altura. Teria sido esse o motivo que levou o então adolescente a ser desprezado pelo Botafogo, anos antes de brilhar por um dos rivais do Fogão.
O defensor chegou ao Flamengo em 1980. Em seu primeiro ano, fez parte do elenco campeão brasileiro. Concorrendo com Luís Pereira, Rondinelli, Marinho e Figueiredo, um novato naturalmente não teria grandes chances. Na temporada seguinte, entretanto, com as saídas de Pereira (Palmeiras) e Rondinelli (Corinthians), Mozer firmou-se de vez como titular.
1981: um ano histórico
O segundo semestre de 1981, por sinal, leva um lugar especial no imaginário do torcedor flamenguista. Num intervalo de um mês, o Flamengo conquistou três títulos. O capítulo inicial da saga rumo à tríplica coroa começou no Maracanã em 13 de novembro, numa vitória sobre o Cobreloa, na primeira partida das finais da Taça Libertadores da América. Uma semana depois, num jogo violento, foi a vez de os chilenos vencerem em casa.
O resultado forçava uma partida extra em campo neutro para dali três dias; o Centenário de Montevidéu foi o palco escolhido pela Confederação Sul-Americana. No Uruguai, Zico marcou duas vezes e deu ao Fla seu único título continental. A partida, tensa e catimbada, terminou com cinco expulsões.
Exatos trinta dias após a primeira decisão da Libertadores, o Flamengo entrava no Estádio Nacional de Tóquio para decidir o Mundial de Clubes diante do Liverpool, campeão europeu. Bastaram os 45 minutos iniciais para o Urubu matar o jogo, abrindo 3-0. Foi o primeiro título mundial de um clube brasileiro no então novo formato da competição: jogo único e disputado no Japão.
No curto espaço de tempo entre o título continental e a Copa Toyota, o rubro-negro ainda encontrou tempo para bater o rival Vasco na decisão do Campeonato Carioca, numa época que os estaduais tinham um peso muito maior na prioridade dos clubes brasileiros – tanto é que fechavam o calendário, com o Campeonato Brasileiro ocupando o primeiro semestre. Nas três conquistas, Mozer foi titular, formando a dupla de zaga com Marinho ou Figueiredo.
Seleção e Europa
Nos dois anos posteriores, passou a se revezar com os parceiros na defesa. Mesmo assim, conquistou mais dois troféus para sua coleção: os Brasileirões de 1982 e 1983. Credenciado pelos títulos, não demorou para ganhar suas primeiras chances na seleção. Chamado por Carlos Alberto Parreira, debutou pele seleção na Copa América de 1983. A primeira passagem de Parreira não durou muito, mas o zagueiro permaneceu sendo convocado pelos treinadores seguintes. Entretanto, sofreu uma torção no joelho e acabou perdendo a Copa de 1986.
O estilo técnico e habilidoso de Mozer fugia do estereótipo “zagueiro-zagueiro”. Ainda em 86, o beque inauguraria uma nova fase de sucesso em sua carreira: o reconhecimento no futebol europeu. Contratado pelo Benfica, passou duas temporadas e foi campeão português em 1989.
O destaque em gramados lusos chamou atenção do Olympique de Marseille, então muito maior no cenário europeu se comparado a sua relevância nos dias atuais. Na França, foi peça fundamental nos três últimos títulos do time tetracampeão nacional entre 1989 e 1992, tornando-se um dos maiores defensores da história do clube.
Em grande fase, recebeu de Sebastião Lazaroni a amarelinha número 13 e esteve no fracasso brasileiro no Mundial da Itália. De volta ao Vélodrome, foi titular da histórica campanha do clube então Copa Européia, quando o OM chegou até a grande final. Nos pênaltis, deu Estrela Vermelha, mas Mozer converteu sua cobrança.
Aos 32 anos, retornou ao Benfica para mais três temporadas. Teve tempo de conquistar seu segundo título português, em 1994. Ainda naquele ano, o destino quis que o ex-flamenguista não vencesse uma Copa do Mundo e o zagueiro voltou a perder um Mundial por lesão, ficando de fora da seleção que conquistou o tetra.
Fim de carreira e aposentadoria
Como muitos jogadores consagrados também fizeram na metade dos anos 90, Mozer foi para o Japão atuar na então milionária J-League. Seguindo o amigo e ex-companheiro Zico, acertou com o Kashima Antlers e encerrou a carreira por lá, não sem antes conquistar mais um título nacional para sua coleção.
Carreira encerrada, Mozer resolveu arriscar-se numa atividade bem diferente do futebol: a gastronomia, ao abrir um restaurante em Lisboa. Porém, após anos longe do esporte, foi voltando gradativamente ao seu “ramo”. Primeiro, como comentarista de um canal português; depois, iniciando sua carreira de treinador.
No banco de reservas, passou por Angola (Interclube) e Marrocos (Raja Casablanca), antes de retornar a Portugal, para uma breve passagem pelo Naval. Atualmente, treina o Portimonense, da segunda divisão portuguesa.
Mesmo longe do Flamengo há 25 anos, Mozer jamais saiu da memória do torcedor. Em votação recente feita pela revista Placar, foi eleito por um colegiado de torcedores ilustres como um dos melhores zagueiros da história do Flamengo, ao lado de Domingos da Guia e Aldair. Homenagem justa a um atleta que ganhou todos os títulos possíveis com a camisa rubro-negra.
Ficha técnica
Nome completo: José Carlos Nepomuceno Mozer
Data de nascimento: 19/09/1960
Local de nascimento: Rio de Janeiro (RJ)
Clubes: Flamengo (1980-87), Benfica (1987-89), Olympique de Marseille (1989-1992), Benfica (1992-1995), Kashima Antlers (1995-1996)
Seleção de base que defendeu: nenhuma
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