Mozart Maragno - 12/01/2012
Enquanto for vivo - e me aturarem por aqui - vou escrever sobre esse tema tão interessante que é a Copa São Paulo de Futebol Júnior, o maior e melhor torneio de base do país. E todo ano, além das inúmeras revelações, dos bons jogos, das boas histórias, da emoção que a Copinha proporciona, temos a ladainha, chata, modorrenta dos "críticos". Geralmente há duas categorias de "críticos": (1) os que não acompanham e ficam apenas repetindo a mesma coisa (inchaço, competição de empresários, perdeu o charme, revelava mais no passado...) e (2) os que até acompanham razoavelmente, mas viram "preciosistas", e tudo é motivo para críticas, inclusive usando os velhos clichês já citados.
Aliás, o objetivo do texto é abordá-los, pois não resistem a cinco míseros minutos de debate sério.
>>> Neymar, Lucas e Ganso estão na seleção da Copa SP desde 2007
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O primeiro deles e mais presente nos meios de comunicação é que a Copinha está "inchada". Primeiro que ela não está inchada, no contexto. Um Estado como São Paulo, sendo a potência que é, permite comportar os 96 clubes até com certa tranquilidade. As sedes fazem bem seu trabalho e as equipes podem desenvolver suas atividades com tranquilidade.
Com 96 equipes, o interior do Estado e o interior do Brasil podem estar representados, o que é o grande mérito e o objetivo do formato. Isso possibilita visibilidade e oportunidade para quem nunca teve. Isso permite que quem nunca foi visto seja visto. Que um técnico que nunca teve voz e vez, possa mostrar seu trabalho, interagir com comissões técnicas de grandes clubes, aprender. O gostoso e motivador para o clube do interior é justamente jogar contra o grande. Tirar isso é castrar a essência do torneio. Esse é um vetor que ruma a democracia num país continental e desigual como o Brasil. Eu penso que essa "crítica" (e é com aspas mesmo, pois é pueril e sem consistência) é de uma mesquinharia inacreditável.
Mas aí um jornalista renomado chega e profere: "Ah, mas é ela um torneio de empresários". Prêmio Esso para esse cidadão já! Quanto brilhantismo! Falando sério: é dose de aguentar, hein? Meus irmãos, o futebol sempre foi capitalista e o futebol moderno, especialmente, tem uma profusão de empresários faz pelos menos 20 anos. É claro que têm empresários que colocam atletas em clubes, que eles assistem aos jogos, que há todo tipo de observador e olheiro. Qualquer competição de base tem. Porém, quem lê o Olheiros, sabe que a intenção é sempre que os critérios de ingresso das equipes seja técnico, embora haja quem tente se inserir por meios políticos. Quanto melhor for a gestão da base dos clubes, mais o aspecto técnico vai ser o principal indicador para a prospecção de talentos. O empresário se for Wagner Ribeiro ou o Papa passa a ser secundário. Todo jogador com mais de 15 anos em qualquer clube razoável tem empresário. Se isso for um problema grave na visão de alguns, então vamos fechar o futebol.
Um terceiro jornalista implacável com a Copinha, não satisfeito, vem e diz "Ah é? mas do que adianta se a Copinha perdeu o charme". Eu já escrevi isso aqui no Olheiros e repito: dizer que a Copinha perdeu o charme tem o mesmo efeito de dizer que a finada Dercy Gonçalves tinha perdido o charme nos últimos tempos". O que havia na Copinha que não há hoje? A memória afetiva da infância, adolescência e juventude de alguns? A final do ano passado entre Bahia e Flamengo (com forte mobilização das torcidas, presenças de dirigentes, Luxemburgo) teve mais público que a final de 1990 entre Flamengo e Juventus, por exemplo. Havia tanto charme e vigor que a Prefeitura de São Paulo não se interessou em realizá-la em 1987. Ela vinha moribunda naquele período e ganhou nova roupagem com a FPF, sendo que desde lá só melhora, evolui. Não reconhecer isso é brigar com os fatos. Porém, entendo esse abraço de afogado num discurso romântico e saudosista. É marca nativa.
Entretanto, um quarto jornalista, não contente, dispara: "Nem vem, pois a Copinha revelava muito mais no passado". Eu digo: revelava onde cara pálida? Ouço desde sempre as mesmas 4 ou 5 revelações. Falcão e Cerezo na década de 1970, Casagrande na década de 1980 e Djalminha/Denner no início dos anos 1990. Por outro lado, nos últimos cinco (5) anos poderia formar umas duas ou três seleções de ótimos jogadores que disputaram a Copa São Paulo com destaque (pelo menos para quem assiste os jogos com atenção). O Olheiros fez uma delas (Neymar, Ganso, Lucas...), por meio do ótimo Pedro Venancio. Não há comparação.
Estava vendo o Benfica outro dia pelo Campeonato Português e Bruno César se destacando muito. Fez duas belas Copinhas, em 2006 pelo Bahia (eliminou o Inter, de um tal Alexandre Pato) e 2007 pelo São Paulo (vice-campeão). Troco de canal e vejo o lateral Marcelo, referência do Real Madrid, justo ele que foi tão bem na Copinha de 2006, pelo Fluminense. Continuo "zapeando" e dou de cara com Roberto Firmino esmerilhando no Hoffenheim alemão. O Figueirense usufruiu muito de seu talento na Copa São Paulo de 2009. Poderia ficar horas aqui citando e citando, entre alternativos e mais conhecidos. Não por mérito meu e sim da Copinha dos últimos anos.
O dado concreto e objetivo, como diria um ex-metalúrgico, é o seguinte: ou não se acompanha, ou se tem má vontade, ou a memória afetiva tem atacado muito. Não é possível que todo ano repitam a mesma coisa, como algo negativo, e não se justifique adequadamente. Fique nisso mesmo. E tem ainda aqueles que enxergam mil defeitos aqui dentro, na Copinha, e aí lá fora ficam escamoteando problemas e defendendo o indefensável. Falam grosso com a Copinha e falam fino com o futebol do exterior. Enquanto for necessário e possível, todo ano colocaremos esses fatos inexoráveis às claras. Indignação seletiva não cai bem.
A Copinha precisa melhorar? Claro. Passagens aéreas para todos, aprofundamento dos critérios técnicos como seleção, estádios cada vez melhores, combate aos "gatos", entre outras situações. Agora, a Copa São Paulo de Futebol Júnior é a maior e melhor competição de base em termos de clubes do mundo. Um show de futebol, de revelações, emoções e, evidentemente, de contradições. Especialmente, um show de democracia.
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