Equipe Olheiros.net - 24/01/2012
De um lado um treinador boleiro, sempre sorridente e que começa a transformar as categorias de base de um clube que há muito não revela. Esse é Narciso, técnico do Corinthians na final da Copa São Paulo. Do outro está um estudioso da bola, educador por essência e que implanta um estilo de jogo bastante vistoso no clube que comanda. Esse é Marcelo Veiga, treinador do Fluminense, outro finalista da Copinha. Um jogo que colocará frente a frente muito mais do que os dois maiores vencedores do torneio: fará cruzar duas escolas diferentes de treinadores, que começam a dar seus primeiros passos em carreiras que têm tudo para decolar muito em breve.
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Maiores vencedores do torneio, alvinegro e tricolor somam nada menos do que 12 títulos e 20 participações em finais. Um jogo entre duas das mais respeitadas escolas de formação de atletas do Brasil. Enquanto o Timão vai atrás de seu oitavo título, o Flu tenta encerrar um jejum que já dura desde 1989 para chegar ao hexacampeonato no maior torneio de base do país. E se dentro de campo os jogadores serão essenciais para a decisão, o Olheiros analisa a caminhada de cada time a partir daqueles que são suas bases: Narciso e Marcelo Veiga.
Narciso, o boleiro
Invicto, o Corinthians chega à grande final para tentar consolidar ainda mais sua supremacia na Copa São Paulo, da qual é o maior campeão, tendo levantado a taça em nada menos do que sete oportunidades. Mas mais do que isso, o alvinegro chega à decisão embalado pelo desejo recente de se tornar um dos maiores formadores de atletas do Brasil. Com mais atenção despendida às categorias de base, o Timão não quer apenas ganhar: tem o ambicioso projeto de formar. Um projeto que passa essencialmente por Narciso, figura nova, mas de muita importância dentro da formação de jovens no clube paulista.
Divergências na filosofia de trabalho fizeram com que o treinador deixasse o Santos ainda no começo de 2011, após a eliminação do Peixe na Copinha. O final de um trabalho de quase três anos, porém, não fui suficiente para deixar o ex-zagueiro parado. Dono de um linguajar típico dos boleiros, fala a língua dos jogadores e, sem muitos rodeios, coloca os grupos que comanda em suas mãos sem muitas dificuldades. Chegou ao Corinthians com moral e conseguiu ser ponto-chave da política recente do clube de valorizar a formação de jogadores.
A campanha na Copinha é obra clara da intervenção de Narciso como treinador. Com o grupo fechado, não sofreu o baque do corte de última hora do bom meia-atacante Paulinho, até então um dos principais pilares de seu 4-2-3-1. Manteve o esquema e lançou Leonardo, até então reserva, entre os titulares. Com um meio-campo veloz e composto por volantes que sabem marcar e avançar com intensidade semelhante, o Timão chegou à final com um ataque em destaque e uma defesa quase que invencível, sofrendo apenas um gol em todos os jogos que realizou. Um esquema que, acima de tudo, é reflexo das táticas utilizadas por Tite no profissional e que, por isso, faz com que os garotos possam ter ainda mais chances de boa adaptação ao subirem.
Aos poucos, Narciso soube aliviar a pressão em cima de seus atletas e, mesmo sem muito favoritismo ao início da Copinha, montou uma geração que já é apontada como a melhor dentro do clube desde 1999, ano em que o Corinthians se sagrou campeão do torneio e ainda emplacou muitos dos garotos campeões no time profissional. Panorama que o boleirão Narciso parece estar cada vez mais próximo de conseguir. O eventual título em 2012 ainda serviria para espantar aquele que parece ser os últimos fantasmas na carreira do novo treinador: o vice-campeonato em 2010 e a eliminação precoce em 2011, ambos quando ainda comandava o Peixe.
Muito trabalho dentro de um grupo talentoso e um pouco de ajuda de uma direção que aos poucos dá sinal de que começará a trabalhar melhor a base. Essa é a receita de Narciso, que não raramente é visto de shorts e chinelos durante as poucas folgas que tem tido desde que a Copinha começou. Um treinador que se forma junto com o elenco que tem (cada vez mais) nas mãos e que pode utilizar sua ótima campanha como trampolim para uma carreira no profissional. No Corinthians de Denner, Matheuzinho, Leandro, Leonardo e Marquinhos, Narciso se destacou e mostrou que não é mais promessa: é um treinador consolidado e com um caminho longo a ser percorrido. (Leonardo Sacco)
Corinthians na Copinha
Matheus; Cristiano, Antônio Carlos, Marquinhos e Denner; Anderson, Gomes, Giovanni, Matheuzinho e Leonardo; Douglas. T.: Narciso
Primeira fase
Corinthians 9 x 0 Santos (PB) – (Denner, Giovanni, Matheuzinho (2), Leandro (3), Gomes (2))
Corinthians 2 x 0 Desportiva Capixaba (ES) – (Jean Theodoro e Leandro)
Corinthians 3 x 0 Juventus-SP (Denner, Anderson e Douglas)
Segunda fase
Corinthians 1 x 0 Goiás-GO – (Matheuzinho)
Oitavas de final
Corinthians 5 x 1 Primeira Camisa-SP – (Leonardo (2), Douglas (2) e Gomes | Fabrício)
Quartas de final
Corinthians 2 x 0 América-MG – (Matheuzinho e Leandro)
Semifinal
Corinthians 6 x 0 Atlético-PR – (Giovanni, Douglas (3) e Matheuzinho)
Marcelo Veiga, o estudioso
Decisão de Copa São Paulo também está longe de ser novidade para o Fluminense. Inclusive, o tricolor carioca tem um aproveitamento bem interessante em finais da competição. Em seis oportunidades, a equipe do Rio de Janeiro levou a melhor em cinco delas, sendo portanto o segundo maior campeão da história do torneio. Uma das vítimas da eficiência do time das Laranjeiras, aliás, foi o próprio Corinthians, rival desta quarta-feira: na decisão de 1973, o Flu venceu o Timão por 2 a 0 na prorrogação, após empate sem gols no tempo normal, e conquistou seu segundo título na Copinha. Caneco, aliás, que o clube almeja reconquistar após 23 anos.
E se entre os paulistas há a aposta em um treinador com larga experiência dentro de campo, o Fluminense confia em um técnico de características mais acadêmicas, não exatamente adepto da linguagem boleira de Narciso, mas de uma postura próxima a de um educador - ele próprio revelou, em entrevista ao amigo Pedro Venancio, ter sido essa a razão pela qual foi contratado nas Laranjeiras em 2004 pelo então diretor de base do tricolor, Marcelo Teixeira. O mentor por trás da campanha ascendente do Flu na Copinha - na qual após uma classificação apenas por índice técnico à segunda fase, a equipe cresceu de forma notável em todos os aspectos - é Marcelo Veiga.
O treinador segue "à risca" o roteiro do técnico de características acadêmicas, com uma equipe bem postado e obediente taticamente. O que não significa que se trate de um time preso. Pelo contrário. Com um toque de bola veloz e liberdade às peças do setor ofensivo - em especial para o meia Eduardo, principal talento tricolor na Copinha, aproximar-se da linha de frente e armar o jogo - o Fluminense se configurou como um rival temido do meio para frente, com 22 gols marcados até o momento (média de 3,66/jogo). A pressão na saída de jogo e a mão nas substituições (como na entrada do decisivo Fernando, durante o difícil confronto contra o Desportivo Brasil) também chamram atenção.
No clube, Veiga já passou por todas as categorias, do sub-11 ao sub-20, onde está agora. O currículo recente é curioso. Afinal, levou o Fluminense a final de três dos quatro principais torneios em disputa no último ano (Taça BH, Campeonato Brasileiro Sub-20 e Taça OPG), ficando pelo caminho só no Carioca de Juniores. A sorte ainda não bateu a porta da equipe no quesito títulos - o Flu perdeu as decisões para Atlético-MG, América-MG e Flamengo, respectivamente - mas a julgar pelo fato de que em prazo inferior a um ano o tricolor terá disputado a decisão dos três grandes campeonatos de base do Brasil, pode-se concluir que um trabalho bem feito está em desenvolvimento em Xerém.
O encontro entre Narciso e Marcelo Veiga não é um confronto que determinará qual das duas metodologias de trabalho (a do boleiro ou a do estudioso) é a melhor, até porque a vitória em uma partida passa por diversos fatores, por vezes alheios às vontades de técnico e jogadores. Trata-se, na verdade, da prova de que ambas as filosofias podem caminhar juntas no desenvolvimento do atleta e dos próprios treinadores enquanto profissionais mais completos. Quem ganha com a ideal integração entre tais filosofias é o futebol de base - e por consequência, o futuro do futebol brasileiro. (Lincoln Chaves)
Fluminense na Copinha
Silésio; Fabinho, Wellington, Leo Lelis e Ronan; Rafinha, Willian, Higor e Eduardo; Michael e Marcos Júnio. T: Marcelo Veiga
Primeira fase
Fluminense 5x0 Ji-Paraná/RO (Eduardo (2), Higor, Michael Vinícius, Fernando)
Fluminense 2x1 Mogi Mirim (Higor, Rafinha)
Fluminense 2x3 Olé Brasil (Michael, Rafael Assis)
Segunda fase
Fluminense 1x0 Bahia (Michael)
Oitavas de final
Fluminense 4x1 Grêmio (Marcos Júnio, Maicon, Higor, Ronan)
Quartas de final
Fluminense 4x2 Desportivo Brasil (José Júnior (contra), Fernando (2) e Higor)
Semifinal
Fluminense 4x0 Coritiba (Marco Júnio (2), Rafael Assis, Rafinha
Crédito das imagens
Narciso: Edson Lopes Jr./Terra
Marcelo Veiga: Ralff Santos/Fluminense FC
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