Pedro Venancio - 03/02/2012
Pela grandeza que caracteriza a competição, a Copa São Paulo é um torneio que reúne diversos personagens e, consequentemente, inúmeras histórias de vida, sonhos, alegrias e decepções. Algumas delas são contadas, mas a grande maioria passa despercebida, quase anônima. É o caso da trajetória de Klauss Lopes Câmara, coordenador da base do Fluminense, que nas últimas cinco edições do torneio chegou em três finais e conquistou um título, pelo Figueirense.
>>> Saiba tudo sobre a Copa São Paulo 2012
>>> Siga o Olheiros no Twitter
Mineiro, 31 anos, jeito simples e sempre alegre, Klauss sonhou um dia em ser jogador de futebol. Jogou nos juvenis do Cruzeiro com nomes como Kléber Monteiro e Itamar, nos juvenis do futsal do Atlético Mineiro, e foi profissional por um ano no Belo Horizonte Futebol e Cultura, extinto time fundado por Reinaldo, ex-centroavante e ídolo do Atlético Mineiro. Aos poucos, porém, percebeu que a carreira não vinha dando certo e resolveu se aposentar precocemente para voltar aos estudos.
A decisão teve suas consequências. Ao escolher pelo curso de Gestão Esportiva, ele precisou se mudar para Florianópolis para cursar na Unisul. Para se manter, fez de tudo: trabalhou em uma fábrica de roupas íntimas, foi balconista de uma loja de conveniências de um posto de gasolina e vendia brigadeiros em todos os lugares que ia. “Mesmo diante de todas essas dificuldades, jamais esmoreci. Sempre batalhei, pois sabia que minha hora ia chegar”, disse.
A sorte começou a sorrir em 2006, quando, depois de bater muitas vezes na porta do Figueirense, foi indicado pela Unisul para um estágio no time catarinense. Lá, conquistou a Copinha em 2008 e chamou a atenção do Atlético Paranaense, onde foi vice-campeão do torneio em 2009. De volta a BH, disputou as edições de 2010 e 2011 pelo Cruzeiro, que teve dois bons times, mas foi eliminado pelos dois campeões – São Paulo e Flamengo -. Em 2012, ele voltou a decisão, desta vez com o Fluminense. Saiu derrotado e triste, mas com a certeza de que vem fazendo mais um bom trabalho, como revela em entrevista ao Olheiros.
Olheiros – Das últimas cinco edições da Copinha, você esteve em três finais e nas outras duas foi eliminado pelo campeão. Existe algum segredo para essa constância entre os primeiros colocados?
Klauss – É mesmo, é? Nem tinha parado para pensar nisso (risos). Não sou obcecado com números e estatísticas. Procuro trabalhar dentro do clube, interferir em todo o cotidiano do clube, e estar próximo dos jogadores, para ajudar-los a crescer e, na medida do possível, blindar-los de todo o contexto de assédio que os cerca. Sempre falo com eles sobre o meu sonho de ser jogador, que não deu certo, e procuro passar um pouco da minha experiência no futebol.
Olheiros – Você está no Fluminense desde o fim de agosto. Quais foram suas principais medidas até aqui?
Klauss – Assim que cheguei, priorizei a contratação do Eduardo. Conhecia o jogador de outras Copas São Paulo e sabia que o estilo dele, técnico e com muita visão de jogo, iria encaixar com o elenco do Fluminense. Tenho um bom relacionamento com o representante dele, o que também facilitou a negociação, além de ter tido a chancela da diretoria, pois sem isso a vinda dele não seria possível. Além disso, busquei conhecer todos os elencos do clube, dos mais novinhos até o sub-20, para poder fazer uma avaliação, e procuro estar perto de todos os jogadores. A iniciação dos jogadores do Fluminense no futsal também é importantíssima, pois a história dos craques brasileiros mostra que esse é o caminho adequado para se começar no esporte.
Olheiros – Você passou por Figueirense, Atlético Paranaense e Cruzeiro antes de chegar ao Fluminense. Fale um pouco sobre essas experiências.
Klauss – No Figueirense, o modelo de gestão me chamou muito a atenção enquanto eu era aluno da Unisul. A prova disso é que o clube, mesmo sem recursos financeiros comparáveis aos grandes, conseguiu ficar seis anos seguidos na Série A e agora está de volta. Devo muito ao Figueirense, pois eles me abriram as portas e lá encontrei muitos profissionais competentes que me ensinaram muita coisa, sobretudo o Damiani, que foi o cara que me abriu as portas e me ajudou muito. (N.R: Erasmo Damiani, profissional muito bem visto no meio do futebol, que foi junto com Klauss para o Atlético Paranaense, e só saiu agora, com as demissões em massa de Mário Celso Petráglia). No Atlético Paranaense, assumi a coordenação de captação e conheci o Ricardo Drubscky, que é um grande mestre, um profissional como poucos aqui no Brasil. Também aprendi muita coisa com ele e com a possibilidade de ver o funcionamento de um clube mais organizado, com CT integrado e grande convivência entre a base e o profissional. O Cruzeiro é o clube onde eu comecei e pelo qual tenho muito carinho, pude ajudar a mexer na geração /95, que perdia todas em Minas Gerais, trouxemos nomes como Judivan e Carioca e o time melhorou. No Atlético, montamos a equipe /93/94/95 com Taiberson, Jean, Octávio, Hernane, entre outros jogadores. Acho que, ao mesmo tempo em que aprendi muito, consegui deixar um legado positivo por onde passei.
Olheiros - Você estava no Cruzeiro, morando em sua cidade natal, perto da família. O que te atraiu na oferta do Fluminense?
Klauss – O projeto do Fluminense de formação, revelação e aproveitamento de jogadores me atraiu muito, além das pessoas envolvidas. Fico muito honrado em ter sido indicado pelo Marcelo Teixeira e pelo Jorge Macedo para o cargo, mas se fui indicado é porque viram alguma coisa positiva em mim, então tenho que fazer jus a essa confiança. Priorizo sempre o jogador com talento, com recursos técnicos, mesmo que, aos 15 anos, ele não dê tanto resultado quanto alguém mais forte, maturado. E vejo que há essa convergência de pensamento dentro do clube.
Olheiros – Ao mesmo tempo em que o Fluminense buscou montar um projeto forte na base, investiu pesado em contratações como Thiago Neves e Wagner para os profissionais, que estão com o elenco inchado. Não achas que isso pode tirar o espaço desses garotos?
Klauss – Ter jogadores com o potencial do Thiago Neves é um privilégio só do Fluminense, que hoje tem um grande elenco, capaz de ganhar títulos nacionais e internacionais. Não posso achar isso ruim de maneira nenhuma. Além disso, esse alto nível dos profissionais nos obriga a formar com excelência.
Olheiros – Durante a Copa São Paulo, foi perceptível sua interação com os jogadores, sempre buscando um clima alegre no ambiente de trabalho. É parte da sua filosofia ou algo natural?
Klauss – Sem dúvidas, faz parte do trabalho. Sou uma pessoa muito positiva e sempre busco juntar alegria e dedicação durante o tempo em que estou em serviço, e isso não quer dizer falta de seriedade. Estamos quase sempre longe de nossas famílias, então o ambiente de trabalho é fundamental para que haja sucesso. Aqui, não sou só um coordenador, trabalho também com sonhos, me sinto responsável por várias carreiras. Mas o trabalho vem em primeiro lugar. Gosto de trabalhar, e não acredito em sorte. Tanto que jamais desejo “boa sorte” a ninguém. É sempre “bom trabalho”.
Olheiros - Você comentou que teve o sonho de ser jogador de futebol, mas não deu certo. E fora das quatro linhas? Tem algum sonho grande?
Klauss – Você pergunta em que sentido? Algo emblemático, um mito? Ter uma Ferrari? Trabalhar no Barcelona? Seria maravilhoso. Mas o ideal mesmo é que existam vários Barcelonas no Brasil, clubes capazes de formar em grande quantidade e que priorizem o talento na seleção de seus atletas. Com o material humano que temos, há totais condições para que isso aconteça, e nesse momento trabalhamos para que o Fluminense seja um desses clubes.
Créditos das fotos
Interna: Site oficial do Fluminense
Capa: Pedro Venancio / Olheiros.net
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares