Murillo Moret - 03/02/2012
O ano era o de 1988. Alessandro Del Piero tinha 13 anos. Na época, o camisa 10 da Juventus era Oleksandr Zavarov, um dos melhores jogadores que a Ucrânia/União Soviética já produziu. O italiano começou usando a 7 no Padova. Aliás, a mesma numeração na Nazionale quando foi campeão mundial em 2006. Ele passou sua juventude toda nas instalações biancoscudati, evoluindo gradativamente nas categorias de base. Engana-se, pois, quem pensa que Del Piero sempre fora um atacante.
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Nascido em Conegliano, o jovem começou sua carreira futebolística em San Vendemiano, um município na região rural de Treviso, no Norte da Itália. Só que ele não fazia gols; defendia. A mãe, Bruna, preocupada com o filho, imaginava que Alessandro teria menos problemas com lesões se fosse goleiro. A sorte – de Del Piero e, futuramente da Juventus – foi que Stefano, irmão mais velho do menino, convenceu-a que o caçula precisava jogar no ataque. Assim, então, começava a história do Pinturicchio. Aqui, dividida em quatro atos; os quatro títulos quando jovem.
Ascensão, Pelé e Juventus
Alguns olheiros começaram a acompanhar jogos do San Vendemiano, em 1988. Destes, um, em especial, ficou bastante agradado com o que via: um menino bem mais magro que os outros, ousado e com um talento acima do normal. Foi assim que Del Piero entrou para as categorias inferiores do Padova. O italiano deixou a família em sua cidade natal para realizar seu sonho. Bruna e Gino, o pai, incentivaram. Viram, de longe, o filho amadurecer rapidamente; crescer, bom... nem tanto para o segundo atacante que não tem mais que 1,73m. Apesar de 77 km afastado de casa, sempre conversava com Stefano, nove anos mais velho e seu conselheiro. O primogênito jogou profissionalmente pela Sampdoria, mas encerrou a carreira precocemente por conta de lesões.
Sempre encantando, Del Piero subiu do giovanissimi para o allievi. Aconteceu o mesmo na seleção: era do sub-16 e foi chamado para a sub-17 – ainda passou pela Squadra Azzurra sub-18, também. Já era o ano de 1991 quando, na Toscana, o talento do Padova viu Pelé nas tribunas. Na partida de estreia do Mundial Sub-17, Ale perdeu um pênalti, foi substituído ainda no primeiro tempo e viu a Itália perder por 1 a 0 para os Estados Unidos. O técnico Sergio Vatta, contudo, bancou o atacante no time. No empate contra a China, dias depois, Del Piero marcou o seu único gol na competição. No grupo italiano continha Luigi Sartor (tricampeão da Copa da Uefa), Alessandro Birindelli (305 jogos pela Juventus), Matteo Sereni (importante passagem pelo Torino) e Eddy Baggio (irmão mais novo de Roberto Baggio). A Squadra Azzura não passou de fase no torneio vencido por Gana, mas o trequartista foi listado como rising star ao lado de Marcelo Gallardo e Juan Verón (Argentina), Adriano (Brasil) [http://www.olheiros.net/artigo/ler/1533] e Duah e Lamptey (Gana).
Entre o fim do Mundial e maio de 1992, Del Piero esperava pela chance no time profissional do Padova. Na equipe reserva, enfrentou atletas do quilate de Demetrio Albertini, o soldadinho Angelo Di Livio e Antonio Benarrivo. Em junho do ano seguinte, assinou o contrato do futuro. A Juventus pagou 5 milhões de liras italianas ao Padova. Ele sabia que era em Turim que gostaria de estar desde quando integrou as divisões de base de seu antigo clube. Giampiero Boniperti, ídolo bianconero, disse que o novo contratado podia ser comparado a Marco van Basten por conta de seus dribles. Anos mais tarde, em sua autobiografia, Boniperti declarou que Del Piero foi seu último presente para a Juve.
Títulos juvenis em Turim
Em sua primeira temporada na Juventus, o italiano foi treinado por Antonello Cuccureddu no time primavera. Del Piero considera extraordinária, esta época. Chegou com status de jogador a ser lapidado (Adriano Galliani, administrador-delegado do Milan, se arrepende de não ter bancado as liras para comprá-lo), ganhou torneios na base e foi admitido ao time principal.
Na Copa Viareggio 1993, a Juve foi sorteada no grupo B ao lado de Monza, Lazio e Pumas. A classificação veio apenas na última rodada após vitória por 2 a 1 sobre o time mexicano. Na segunda fase, perdeu o clássico contra o Torino por 1 a 0, mas avançou por ser o melhor perdedor – assim como a Atalanta. Despachou a Roma na semifinal e encarou a Fiorentina na decisão. Del Piero marcou o pênalti salvador aos 105 minutos da segunda partida, vencida por 3 a 2. A Juventus não foi vitoriosa apenas naquela competição. O clube conquistou o scudetto no Campionato Primavera. O trequartista marcou o gol no jogo final contra o Torino. Além dele, outro destaque da equipe era Fabrizio Cammarata. O atacante fez um baita barulho na base e era convocado constantemente para as seleções juvenis da Itália, mas não vingou.
A temporada não seria completa se não fossem as 14 presenças na Serie A pelo time principal, vice-campeão. Estreia contra o Foggia, em 12 de setembro, substituindo Ravanelli; sete dias depois, na boda de seus pais, primeiro gol com a maglia da Juventus, diante da Reggina.
Baggio out, Del Piero in
Hoje, se você sintonizar a televisão numa partida da Vecchia Signora, verá Del Piero provavelmente no banco de reservas com a camisa 10. A 7 ainda estava estampada na camisa do atacante italiano em 1994-95. Naquela época, Trapattoni foi trocado por Marcello Lippi. A lesão de Roberto Baggio – joelho direito, cinco meses fora – ajudou na ascensão de Pinturicchio.
A temporada foi de protagonista. Ao lado de Ravanelli e Vialli no 4-3-3, conduziu a Juventus ao 23º scudetto, ao 9º título da Coppa Italia e ao vice-campeonato da Uefa. Em dezembro, marcou um dos mais belos gols em toda a sua carreira: Paulo Sousa ajeitou de cabeça para Alessandro Orlando, pelo flanco esquerdo do meio-campo. Ele achou Del Piero entrando na área, que bateu de direita, num sem-pulo, e acertou o ângulo. O tento determinou a virada, em casa, sobre a Fiorentina após um 0 a 2. Com 20 anos, o atacante foi capa da revista Guerin Sportivo com o título “E nata una stella”. Habilidoso, rápido, confiante e maduro, não teve jeito: ele cresceu tanto na Juventus que o clube despachou Baggio ao Milan.
Entre março e abril de 1994, na França, Cesare Maldini comandou a Squadra Azzurra sub-21 no Europeu da categoria. A Itália passou por Tchecoslováquia, França e bateu Portugal, na final, com gol de ouro de Pierluigi Orlandini. Del Piero estava entre os convocados, assim como Filippo Inzaghi, Christian Vieri e Fabio Cannavaro.
Europa e o mundo
Foi tudo de uma vez. Cesare Maldini comandou a sub-21 novamente em um Europeu e levou o caneco para casa – vitória sobre a Espanha, nos pênaltis. Del Piero, então, já era bi-campeão do torneio. Este foi o segundo dos três troféus conquistados na seleção. Só que Pinturicchio nunca teve tanto glamour na Nazionale quanto na Juventus. Em 1996 abocanhou alguns títulos que lhe faltavam: Supercopa da Itália, Liga dos Campeões e Copa Intercontinental. Além de ser o artilheiro de sua equipe na Champions, foi eleito o melhor sub-23 do mundo.
Quase 16 anos se passaram desde aquela partida contra o Ajax, em Roma, até o histórico primeiro gol marcado na Arena Juventus, contra a Roma, em 24 de janeiro de 2012. A idade já pesa. São 37 sobre as chuteiras. O banco de reservas, contudo, não é um problema. Sempre que o treinador olha para trás, lá está o ídolo que conforta a torcedores e companheiros de time. Del Piero já escreveu sua história; agora, está apenas dando uns toques finais ao seu best-seller.
Ficha técnica
Nome completo: Alessandro Del Piero
Data de nascimento: 09/11/1974
Local de nascimento: Conegliano, na Itália
Clubes que defendeu: San Vendemiano (1981-88), Padova (1988-93) e Juventus (1993-)
Seleções de base que defendeu: Itália sub-16, sub-17 e sub-21
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