Lincoln Chaves - 20/02/2012
No final de 2005, após um frustrante início de temporada, o Sporting demitiu José Peseiro e colocou no comando do time principal o então inexperiente Paulo Bento, à época treinador da equipe de juniores. Pouco mais de seis anos depois, a história se repete: Domingos Paciência deixa o profissional e quem assume é Ricardo Sá Pinto, que até o começo da última semana vivia sua primeira (e ainda curta) experiência como técnico, no sub-19 leonino. Uma aposta incentivada não só pelo histórico do hoje técnico da seleção das Quinas (que apesar de não ter conquistado a Liga Portuguesa, arrebatou duas Taças de Portugal e levou os Leões a seguidas Ligas dos Campeões), mas pela perspectiva de que a formação volte a ter força em Alvalade.
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Uma das características do trabalho de Paulo Bento foi justamente o espaço para garotos da base. Hoje no Manchester United, o atacante Nani, campeão nacional de juniores sob a batuta do treinador em 2005, foi o expoente da geração que ainda presenciou a afirmação de João Moutinho e Miguel Veloso – e, mais adiante, do antes contestado e hoje importante Rui Patrício. Também na "gestão" Bento, ganharam espaço jovens como Daniel Carriço e Yannick Djaló, mas também jogadores que apesar de boas chances, ainda caçam seu lugar ao sol – casos de Adrien Silva, André Marques ou Bruno Pereirinha. Em dado momento da temporada 2008/09, por exemplo, o time titular principal dos Leões contava com sete pratas da casa. Algo significativo entre os grandes do país.
Com a saída de Paulo Bento, por sua vez, a base perdeu espaço no Sporting. Tanto que desde Carriço, nenhum outro jogador formado em Alcochete teve a chance de se firmar na equipe – tema esse já abordado nessa coluna, relembre AQUI. Dos que já estavam na equipe, só Rui Patrício continuou entre os titulares e apenas André Santos (que já vinha de dois campeonatos muito bons emprestado ao União de Leiria) teve chance no time principal. Por sua vez, Yannick e Carriço foram gradativamente relegados ao banco – sendo que o primeiro acabou deixando Alvalade e hoje, curiosamente, está no rival Benfica. Ao mesmo tempo, chegaram reforços caros, que nunca se firmaram. A lista é extensa: Sinama Pongolle, Timo Hildebrand, Felipe Caicedo, Miguel Angulo, Leandro Grimi...
No primeiro momento, Sá Pinto não promoveu (e nem deve promover) mudanças muito bruscas. Prova disso é que os times titulares que defrontaram Legia e Paços de Ferreira tiveram quase as mesmas peças que vinham sendo usadas por Domingos. No entanto, aos poucos, o treinador dá sinais de que os pratas da casa terão espaço. Contra poloneses e pacenses, por exemplo, apostou (com sucesso) em Carriço, André Santos e Pereirinha. Ante o Legia, confiou em Carriço mesmo tendo Xandão como opção, e surpreendeu ao lançar André Santos no lugar de André Carrillo, mesmo com Sebá Rivas no banco. Já diante do Paços, Sá Pinto ignorou Matías Fernandez e levou Pereirinha a campo no lugar do lesionado Marat Izmailov.
O aproveitamento dos garotos da base também deve ocorrer de forma gradual, mas com mais ênfase a partir da próxima pré-temporada. Para já, a concorrência do elenco principal é maior do que nos anos de Paulo Bento, e não há (pelo menos imediatamente) um jogador das categorias de formação que resolva as demandas dos Leões. Há bons valores, como o zagueiro Tobias Figueiredo e os meias Felipe Chaby e Agostinho Cá (todos /93), que vêm brilhando no ótimo campeonato de juniores que faz o Sporting (em 23 jogos, foram 19 vitórias e só uma derrota, a melhor campanha do torneio). Já o mais promissor nome dessa safra, o atacante Bruma (sondado pelo Chelsea), ainda tem 17 anos e deve viver essa transição para 2012/13.
Ainda assim, antes dos /93 e /94 que figuram entre os sub-19 leoninos, Sá Pinto terá que observar os "sobreviventes" das safras mais velhas que estão emprestados a outros clubes. Zagueiro e capitão da seleção portuguesa vice-campeã mundial sub-20, o /91 Nuno Reis está na linha de frente dos que devem ser resgatados pelo novo treinador, ao lado do atacante /90 Wilson Eduardo (de ótima temporada 2010/11 pelo Beira-Mar e que já poderia até estar no elenco de 2011/12, mas acabou preterido por Domingos Paciência), do lateral /91 Cédric Soares (também vice-mundial, está cedido à Acadêmica) e até mesmo do também zagueiro /90 Pedro Mendes (emprestado ao Real Madrid, que tem opção de compra do jogador).
Se Ricardo Sá Pinto atingirá resultados futebolísticos semelhantes aos de Paulo Bento, tanto no tocante a resultados como no aproveitamento de garotos da base, ainda é uma enorme incógnita. Mas em que pese a maneira atropelada com a qual houve a demissão de Domingos e a "promoção" do novo treinador, a opção pelo ex-jogador (que além de já ter atuado pelos Leões, foi diretor desportivo do clube entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010) é um sinal de reprovação ao pouco caso dos quatro técnicos que estiveram no Sporting desde 2010 com a base. Resta aguardar e ver se para além dessa mudança, será desenvolvido também um trabalho mais acurado junto as comissões técnicas do profissional e da formação.
Tempo extra
Este escriba já abordou a demissão de Domingos Paciência na última quinta-feira, na coluna que assina na Trivela, sobre futebol português. Confira AQUI.
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