Mozart Maragno - 22/02/2012
Começo a acreditar que o fim do mundo será em 2012 mesmo. Ligo a TV e vejo um jornalista consagrado elogiar despudoradamente a relação de Muricy com a base. E faz isso todos os dias e em todos os programas que participa. Um pouco depois, outro jornalista quer jogar a culpa da fase do São Paulo nos garotos "mimados" da base. Duas teses que trazem uma desonestidade intelectual absurda. Sobre o tricolor, um clichê inacreditável, que até parte da torcida reproduz.
>>> Siga o Olheiros no Twitter
>>> Curta o Olheiros no Facebook
Debaterei o último tema nesse breve texto, pois se tem algo que preserva alguma qualidade no tricolor paulista é sua formação de atletas. E agora com a incorporação de René Simões como o profissional que vai trabalhar a transição da base para a equipe principal, com o objetivo de ter um "8+3". Ou seja, oito atletas vindo da base para três forasteiros, o quadro é mais claro. Que excelente notícia para o São Paulo e o futebol brasileiro, meus irmãos.
Pois bem, existe uma guerra ideológica para os rumos do São Paulo, e Juvenal Juvêncio se coloca ao lado das forças do bem, isto é, na valorização daquilo que traz retorno técnico e financeiro. Por outro lado, o investimento maciço no CFA de Cotia é objeto, pasmem, de críticas pesadas dos próprios são paulinos e de algumas famosas penas amestradas da imprensa esportiva.
Quando durante anos se luta para que os clubes brasileiros deem uma estrutura digna na base e não joguem seus garotos em condições insalubres e precárias, aparecem esses "gênios" para falar do "excesso de conforto" que o tricolor oferece na formação. Queriam o quê? Que amarrassem as pernas deles numa bola de chumbo para treinar ou servissem arroz com "boi ralado" de terceira para aprenderem "o que é a vida"? Tem gente, aliás, que gostaria que não fosse contratado o René Simões e sim o finado Alborghetti para distribuir cacetadas e xingamentos aos garotos do São Paulo. Que coisa horrorosa, hein.
Jogador da base precisa de estrutura e formação integral, multi e interdisciplinar, método claro, com acompanhamento de qualidade. E se tem um espaço no Brasil que pode oferecer isso com excelência é o CFA de Cotia. Lucas, segundo quem trabalhou com ele na base, representaria o modelo perfeito de formação no São Paulo. O melhor jogador do time, cobiçado por alguns dos maiores clubes do mundo, foi evoluindo em todos os aspectos para subir em condições de ajudar. Da mesma forma Wellington, Casemiro (esse com algumas dificuldades comportamentais), os campeões mundiais sub-20 Henrique e Uvini (emprestados a clubes do exterior e com potencial forte de mercado), Luiz Eduardo e Rodrigo Caio, os discretos /93 que compõe bem o elenco, passando agora por Ademílson, mais conhecido como Ademigol ou Ademito, artilheiro nato.
Será que o problema de algumas derrotas do São Paulo devem ser creditados aos meninos? Claro que não. É o inverso. Se o São Paulo quer aspirar algo em 2012 passa pelos jogadores da base (e demais jovens) ganharem os jogos para o tricolor - caso Paulo Miranda e João Filipe permitam. Quer dizer: o clube paga uma grana babilônica para contratar medianos e a culpa é dos focos de talento da equipe que ainda estão ganhando maturidade aos 18, 19, 20 anos?
Portanto, o objetivo do "8+3" é algo pioneiro por aqui e está em consonância com o que há de conceitualmente mais moderno no futebol mundial. Um clube poderoso como o São Paulo tem totais condições de buscar isso, ter foco na formação e na transição da base para o profissional, um dos grandes gargalos ainda no Brasil, que faz com que desperdicemos muitos talentos precocemente.
Quando o São Paulo ganhou a Copinha de 2010 muitos "torceram o bico", dizendo que era só mais um título sem importância, que não se aproveitaria ninguém. Acostumados com o padrão Muricy Ramalho de (não) utilização de garotos, poucos meses depois, com o crescimento meteórico de Lucas e Casemiro, quebraram todos a cara. Na derrota recente para o Corinthians, alguns desses mesmos nomes quiseram tirar uma casquinha dos moleques para tentar comprovar suas "teses" furadas tardiamente. A força do trabalho tricolor e a qualidade dos jogadores jovens não permitirão que se dê passos atrás.
Um dado preocupante para os grandes clubes vem do aumento do dinheiro da televisão. Temos visto investimentos que são verdadeiras máquinas de queimar dinheiro, com mercado inflacionado e salários altíssimos para atletas razoáveis. Se o São Paulo mantém seu investimento em Cotia, o Fluminense deveria fazer o mesmo em Xerém. A Unimed contratou 750 medalhões caros e, ironicamente, o melhor jogador da equipe até agora é Wellington Nem, camisa 10 em três Copa São Paulo recentes (2009, 2010 e 2011). O caminho para o sucesso, portanto, é uma metodologia clara e grana pesada na base. O resto é muito bom para movimentar dinheiro no futebol e enriquecer empresários.
Crédito das fotos: Divulgação São Paulo (capa) e Vipcomm (Wellington)
Todos direitos reservados olheiros.net | Copyright reserved 2008
Triares