Frederico Lira - 08/08/2008
Um time atraente, competitivo e, sobretudo, eficiente. Ao contrário da seleção principal, que se notabiliza por, apesar do jogo bonito e envolvente, contabilizar fracassos nas fases decisivas das competições mais importantes do cenário internacional, a base do time que vai para Pequim é a atual bicampeã sub-21 européia. O último desses títulos foi conquistado em 2007, sob o comando do mesmo Foope de Haan que dirigirá a Oranje em Pequim, e merece especial destaque não tão somente pela boa campanha, como também pela confirmação do extremo potencial dos garotos.
Jogando dentro de casa, os holandeses confirmaram o favoritismo e, após uma campanha de três vitórias e dois empates, asseguraram o troféu. Mais do que isso, mostraram ao Velho Continente a força de uma geração talentosa, que tem em Hedwiges Maduro, Royston Drenthe e Ryan Babel seus principais expoentes e nomes certos para a seleção principal nos próximos anos.
Retorno olímpico
São longos 56 anos sem participar de uma Olimpíada. O intervalo só é cessado agora, com o início da edição de 2008. Em mais de cinco décadas longe dos Jogos, os holandeses acumularam fracassos difíceis de serem digeridos, vide as eliminações em partidas decisivas para Austrália e Espanha, em 1992 e 2000, respectivamente. Assim, a chance de voltar a disputar as Olimpíadas era naturalmente cercada de enorme expectativa. Ainda mais com a possibilidade de assegurar a classificação atuando dentro de casa.
Na condição de anfitriã, a Holanda, campeã da edição anterior, já tinha garantida sua vaga na fase final do Europeu Sub-21, e teve apenas que aguardar as demais sete vagas serem preenchidas através das eliminatórias para conhecer suas adversárias. O sorteio, então, colocou a Oranje no mesmo grupo de Bélgica, Israel e Portugal.
A caminha teve início no dia 10 de junho, em partida realizada no Estádio Abe Lenstra, em Heerenveen, diante da surpreendente Israel. Vencer era quase uma obrigação quando se enfrentava aquela que era considerada a equipe mais fraca do grupo. Um gol anotado por Maduro, aos 10 minutos do primeiro tempo, aproveitando falta cobrada por Royston Drenthe, foi o suficiente para determinar a vitória dos donos da casa. Apesar do placar magro, Foope de Haan pôde ficar satisfeito, visto que seus comandados foram amplamente superiores ao longo da partida, sem que o goleiro Boy Waterman sofresse qualquer ameaça.
Em seguida veio o confronto mais aguardado da primeira fase, contra a forte seleção portuguesa, que dividia com a Holanda o posto de favorita do grupo. Sob o olhar atento de Marco van Basten, que assistia o jogo no Estádio Euroborg, em Groningen, os holandeses alcançaram uma expressiva vitória por 2 a 1, que serviu para fazer deles os primeiros classificados às semifinais – o que também já era suficiente para garantir a vaga em Pequim. Ryan Babel, de pênalti, aos 33 minutos, e Maceo Rigters, aos 30 do segundo tempo, marcaram os gols holandeses. Miguel Veloso ainda, cobrando falta, descontou para os lusitanos, mas já era tarde demais para uma reação.
Apenas duas partidas haviam sido necessárias para assegurar a classificação holandesa aos Jogos Olímpicos de 2008. Com metade do objetivo cumprido, era o momento de se focar na conquista do título, e um empate com a Bélgica por 2 a 2, no jogo que encerrou a primeira, rendeu à Oranje um convincente primeiro lugar no grupo A.
Fase final
Na semifinal, um duelo épico contra a brava seleção da Inglaterra foi travado no Estádio Abe Lenstra. Aquela que seria a partida mais difícil da seleção holandesa exigiu, sob todos os aspectos – técnico, físico e mental - o máximo dos comandados de Foope de Haan.
Leroy Lita, artilheiro da Inglaterra no torneio, abriu o placar aos 39 do primeiro tempo, após bater o capitão holandês Ron Vlaar em disputa de bola. A Oranje seguia com extrema dificuldade em penetrar a bem postada defesa inglesa, e por pouco não viu a classificação ir embora quando, nos minutos finais, Lita cobrou uma bela falta na trave. Tudo parecia perdido para a pouco inspirada Holanda, até que, aos 44 do segundo tempo, o artilheiro Maceo Rigters, em lance puramente acrobático, acertou uma linda bicicleta para empatar o jogo, levando ao delírio os fãs presentes.
Após meia hora de prorrogação – na qual os bravos jogadores ingleses atuaram o tempo todo com um homem a menos, devido à contusão de Nedum Onuha – foram necessárias inacreditáveis 32 cobranças de pênalti, até Anton Ferdinand desperdiçar a sua. Por duras penas, a Holanda iria à final, contra a boa seleção sérvia, que deixara pelo caminho Itália, República Tcheca e Bélgica.
Na partida decisiva, a melhor condição física e a inspiração de Ryan Babel, eleito homem do jogo, e de Royston Drenthe, o melhor do torneio, impulsionaram a belíssima vitória holandesa por 4 a 1. Bakkal, Babel, Bruins e o artilheiro da competição, Maceo Rigters, marcaram para a Oranje. Uma conquista inesquecível, e que certamente credencia a Holanda a fazer um bom papel em Pequim.
Valorização pós-conquista
A excelente campanha e o bom futebol apresentado por algumas peças importantes daquele elenco contribuíram para uma inevitável valorização dos garotos no mercado europeu. Jovens promissores e de muito talento deixavam seus clubes na expectativa de se firmarem em centros maiores. Passado um ano da conquista, porém, nem todos conseguiram alcançar os objetivos.
O habilidoso Ryan Babel foi o primeiro a mudar de praça. Por 17 milhões de euros, deixou o Ajax para defender o Liverpool, onde, embora nunca tenha alcançado a titularidade absoluta, desempenhou papel relativamente importante no clube durante a Liga dos Campeões. Ainda assim, não se pode dizer que tenha correspondido plenamente ao milionário investimento.
Dois jogadores eleitos para a seleção do campeonato deixaram a Holanda para buscar a sorte na Espanha. Royston Drenthe custou quase 10 milhões euros ao Real Madrid e, pela capacidade de se adaptar a qualquer função do lado esquerdo do campo, esperava-se um papel bem mais importante no time de Schuster. Hedwiges Maduro, por sua vez, trocou o Ajax pelo Valencia, que viveu a temporada mais instável dos últimos anos, atrapalhando o aproveitamento dos jogadores mais jovens.
Maceo Rigters, artilheiro do torneio, deixou o modesto NAC Breda, da Eredivisie, para defender o inglês Blackburn, onde amargou o banco de reservas por quase toda a temporada. O meia Daniel de Ridder foi outro que partiu para a Inglaterra. Foi defender o então recém-promovido à primeira divisão Birmingahm, deixando o Celta de Vigo, que fora rebaixado à segunda divisão espanhola.
Meio-campo extremamente ofensivo
Tradicionalmente, a escola holandesa se caracteriza por um futebol ofensivo e envolvente, com dois jogadores abertos nos flancos do campo municiando um centroavante de ofício. Assim, a estrutura tática que é naturalmente trabalhada pelos treinadores holandeses é a variação do 4-3-3 para o 4-5-1, vide a formação utilizado por Marco van Basten na última Eurocopa, o 4-2-3-1.
O esquema de Foope de Haan, contudo, embora não repetisse a tradição do país, era dotado de ainda maior capacidade ofensiva. Uma linha de quatro homens na defesa, composta por Gianni Zuiverloon, Ron Vlaar, Arnold Kruiswijk e Erik Pieters protegia o instável goleiro Boy Waterman.
No meio-campo, Hedwiges Maduro atuava à frente da zaga, como um volante puro. Daniel de Ridder, pela direita, e Royston Drenthe, pela esquerda, avançavam ao ataque, quase como pontas. Sem a posse de bola, recuavam um pouco para ajudar na marcação, mas era a chegada constante às linhas de fundo que caracterizava o papel de ambos na equipe. Pelo centro, Otman Bakkal funcionava como o elemento de transição aos atacantes Ryan Babel e Maceo Rigters – com o primeiro “flutuando” em torno do segundo, que funcionava como um autêntico homem de referência. Na prática, quase um 4-1-3-2.
Ficha Técnica
Clube/Seleção: Holanda
Treinador: Foope de Haan
Competição: Campeonato Europeu Sub-21
Ano: 2007
Escalação: Waterman; Zuiverloon, Vlaar, Kruiswijk (Donk), Pieters; Maduro, de Ridder, Drenthe; Bakkal; Babel e Rigters.
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