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Garotos prodígios

Ronaldinho Gaúcho: fenômeno desde cedo

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Frederico Lira - 02/09/2008

Diante de um San Siro lotado por mais de quarenta mil fanáticos milanistas, Ronaldinho Gaúcho era calorosamente recepcionado sob intensos aplausos e gritos histéricos. Duas vezes eleito melhor jogador do mundo (em 2004 e 2005), o gaúcho de Porto Alegre foi, indubitavelmente, a mais badalada e midiática contratação do mercado de verão italiano. Para contar com os serviços do ex-ídolo do Barcelona, Berlusconi depositou cerca de 20 milhões de euros nos cofres do clube catalão.

A cena, embora recente, poderia naturalmente – com pequenas adaptações – fazer referência a outras situações marcantes da carreira de Ronaldinho, como as apresentações no Parc des Princes e no Camp Nou. Afinal, grandes expectativas e badalações fazem, desde cedo, parte da vida do craque brasileiro, que ainda na base gremista, nos primeiros passos da carreira, já despertava os mais atentos e esperançosos holofotes.

Craque da família
 
Quando já brilhava precocemente no Grêmio, na conquista da Copa do Brasil de 1989, o ex-atacante tricolor Assis – que faria uma carreira apenas mediana na Europa, bem aquém do que se esperava na época – não hesitava em apontar o irmão caçula, uma criança de apenas nove anos de idade, como o verdadeiro craque da família. O moleque dentuço, já na infância, demonstrava a incrível habilidade e controle de bola que lhe caracterizariam no mundo do futebol.

Os anos praticando futebol de salão haviam contribuído bastante para aprimorar a refinada técnica, e a capacidade ímpar de raciocinar rapidamente em curtos espaços de tempo. Ensinamentos que Ronaldinho trouxe consigo para os gramados, quando, levado pelo irmão, ingressou nas escolinhas do Grêmio, naquele mesmo ano.

Multi-campeão na base gremista, foi convocado pelo técnico Carlos César Ramos para a disputa do Mundial Sub-17, disputado no Egito, em 1997, quando foi definitivamente apresentado ao cenário internacional. Com atuações decisivas ao longo do torneio – sobretudo nos jogos contra Argentina e Alemanha, nas quartas e semifinais, respectivamente – conduziu o Brasil ao título, após vitória por 2 a 1 sobre a forte equipe de Gana, na final. Naquele mesmo ano, o Grêmio recebeu do PSV, da Holanda, uma proposta de sete milhões de dólares pelo jovem astro, a qual foi prontamente recusada.

Daquela seleção, os companheiros Fábio Pinto, Matuzalém e Adiel despontavam como aspirantes a craques, mas jamais conseguiriam deixar o status de “foguetes molhados”. Ronaldinho, ao contrário, estava destinado ao estrelato – que ficaria mais perto quando, em 1998, foi promovido por Celso Roth ao elenco principal.
 
Estréia na Libertadores e chegada à seleção

Credenciado pelo título da Copa do Brasil de 97, o Grêmio iniciava o ano de 1998 em busca de seu terceiro título na Libertadores. Com a saída de peças importantes dos anos anteriores, como Arce, Carlos Miguel e Paulo Nunes, veio a inevitável renovação. Dentre os nomes emergentes no Olímpico, estava Ronaldinho, inscrito com a número 18 na mais prestigiada competição da América do Sul, na qual faria sua estréia oficial como profissional. Contra o Chivas de Guadalajara, na primeira fase, Ronaldinho abriu caminho para a vitória por 2 a 0, anotando seu único tento no torneio.

O tricolor gaúcho seria eliminado nas quartas-de-final daquele edição da Libertadores, pelo eventual campeão Vasco, após derrota na soma agregada pro 2 a 1. Embora fosse constantemente acionado – seja entrando de frente ou saindo do banco – “Dinho” não conseguiu a titularidade definitiva naquele ano. A “explosão” no time principal viria no ano seguinte.

Mais confiante e incisivo, Ronaldinho brilhou no estadual de 1999, ao marcar 15 gols na competição. Dentre eles, o especial gol do título, na decisão contra o arqui-rival Inter. Com dribles desconcertantes, ajudou a apressar a aposentadoria do capitão do tetra Dunga, que não conseguiu parar o inspirado dentuço na partida final. Também em 99, ajudou o Grêmio a conquistar a Copa Sul, em cima do Paraná Clube. 

Assim, devidamente reconhecido no país de futebol, fez sua estréia na Seleção brasileira, a 26 de junho de daquele ano, em amistoso contra a Letônia. Naquela vitória por 3 a 0, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, ainda teve – em razão da companhia de outro Ronaldinho, que já brilhava há alguns anos na Europa – a alcunha de “Gaúcho” acrescentada a seu nome.

Quis o destino que Ronaldinho se aproximasse mais cedo da glória, quando o então corintiano Edílson foi cortado da lista de convocados por Luxa para a disputa da Copa América, em razão das polêmicas embaixadinhas na final do Campeonato Paulista, contra o Palmeiras. Ronaldinho assumiu a vaga e não decepcionou. Logo na partida inicial da competição, marcou um golaço contra a Venezuela, na goleada por 7 a 0, após aplicar um belo lençol num defensor e chutar cruzado, na saída do goleiro. O Brasil se sagraria campeão do torneio, após bater o Uruguai na decisão, e Ronaldinho já conquistava seu primeiro título na seleção principal canarinho.

Apogeu e queda no Olímpico

Principal ídolo gremista e já considerado a maior revelação do clube desde Renato Portaluppi, Ronaldinho vivenciava uma ascensão meteórica no começo de 2000. Em Sidney, teria a incumbência de, ao lado de Alex, liderar a seleção olímpica convocada por Luxemburgo. Apesar de marcar, em cobrança de falta, o gol de empate, no último minuto do tempo normal, contra Camarões, terminou ficando com as expectativas frustradas, após os africanos, com dois homens a menos, marcarem o gol de ouro na prorrogação. Era o fim do sonho olímpico brasileiro.

Seu Grêmio, com um time apenas mediano, ainda chegou às semifinais da Copa João Havelange, após eliminar nas quartas-de-final o Sport, que tivera a segunda melhor campanha na primeira fase. O surpreendente São Caetano, porém, trataria de despachar os gaúchos, impedindo-os de chegar à final, que seria vencida pelo Vasco de Romário e Juninho Pernambucano.

Embora não tenha conseguido conquistar nenhum título naquele ano, saiu fortalecido pelo amadurecimento profissional e a afirmação definitiva como jogador de seleção brasileira e alvo das mais diversas especulações no mercado europeu. À época, chegou a ser fortemente comentada uma suposta proposta do Leeds United, da Inglaterra, de impressionantes 80 milhões de dólares pelo jogador. Mas o então presidente do Grêmio, José Alberto Guerreiro, não estava disposto a perder Ronaldinho, chegando ao ponto de mandar colocar uma faixa na frente do Olímpico, a qual dizia que o jovem craque era inegociável.

Cansado de esperar, e ávido por se transferir logo para o Velho Continente, Ronaldinho optou, então, por deixar o clube que o revelou pela via mais traumática. À revelia da direção gremista, assinou um pré-contrato com o Paris Saint-Germain e conseguiu na justiça a sua transferência para a equipe francesa. A batalha judicial ainda se arrastou por mais seis meses, até que em agosto de 2001 ele, enfim, foi liberado para defender o novo time. 

A FIFA ainda determinou que os parisienses pagassem o irrisório valor de 4,5 milhões de euros ao Grêmio para contar com os serviços do jogador. Muito pouco para quem meses antes esteve cotado para se tornar o futebolista mais caro de todos os tempos. Dinho deixava o tricolor gaúcho após disputar profissionalmente 141 jogos – entre partidas oficiais e amistosos – e marcar 68 gols.

O futuro, com a conquista da Copa do mundo de 2002, da Liga dos Campeões da UEFA, em 2006, e de dois prêmios de melhor do mundo, em 2004 e 2005, é conhecido por todos. Ronaldinho Gaúcho alcançou o sucesso que era esperado desde a sua adolescência. Precisamente, desde os tempos de “garoto prodígio” na base gremista.

Ficha técnica

Nome completo: Ronaldo de Assis Moreira

Data de nascimento: 21/07/1980

Local de nascimento: Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Clubes que defendeu: Grêmio, Paris Saint-Germain, Barcelona e Milan

Seleções de base que defendeu: Brasil Sub-17



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