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Oscar: ele é diferente

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Alexandre Lozetti* - 16/10/2008

Jamais escrevi um texto para o Olheiros com tanto conhecimento de causa como este, sobre Oscar, menino-prodígio do São Paulo. E, provavelmente, jamais corri tanto risco de errar.

Difícil entender? Simples explicar! É tão difícil analisar um garoto de 17 anos recém-completados, quanto segurar o entusiasmo por vê-lo rapidamente em ação. Por isso, “falarei” de Oscar de forma um pouco diferente. Quase uma narrativa.

Em meados de 2007, dia da inauguração da megaloja são-paulina no Morumbi, o presidente Juvenal Juvêncio me conta, entre um gole e outro, que escondeu um menino na Espanha até que ele completasse 16 anos e pudesse assinar seu primeiro contrato profissional. O motivo? Ele era assediado pelo Manchester United.

Interessado pela história no dia seguinte, corri atrás de saber quem era o craque! Juvenal não se lembrava do nome. Rapidamente cheguei a Oscar. Nome estranho, de jogador chorão de basquete, boxeador legendário, bedel do colégio... Menos de camisa 10 candidato a craque.

Com o São Paulo campeão brasileiro por (muita) antecipação, precisava de notícias novas. Fui ao Morumbi, num sábado pela manhã, acompanhar São Paulo x Palmeiras pelo Campeonato Paulista Sub-17. E o menino no banco... O técnico Zé Sérgio já seria “cornetado” quando vi o adolescente, de longe. E aí meu espanto não era pelo fato de ser reserva, mas por já ser alvo de entrevistas. “É uma criança! Como pode, desse tamanho, já carregar tanta responsabilidade?”.

Estava na cara que o São Paulo ganharia. Franzino, quase imperceptível, Oscar entrou no segundo tempo só para dar o golpe de misericórdia, o toque de classe. Seus movimentos eram de uma simplicidade assustadora, totalmente objetivos. Num jogo como aqueles, sem transmissão, não sei até hoje quantos toques ele deu na bola, desde o meio-de-campo, setor que domina, até deixar o centroavante sozinho para fechar a goleada por 4 a 1. No vestiário, conversamos. E o moleque se revelou um moleque, para minha alegria. Temia que já estivesse contaminado pelos discursos e atitudes clichês dos profissionais.

A titularidade era inevitável em 2008, até porque os destaques da equipe estavam prestes a mudar de categoria. A maioria estava quase completando 18 anos, enquanto Oscar ainda tinha 16. O diamante, em processo de lapidação, voltou a brilhar intensamente no Mundialito disputado na Espanha. Eleito o melhor jogador da competição com o aval dos companheiros. No CT de Cotia, cerca de duas semanas depois do título (segundo consecutivo, por sinal), nenhum integrante da comissão técnica hesitou em me responder, questionado a respeito do destaque são-paulino: “O time inteiro foi bem, mas o Oscar é diferente”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, até que de repente, lá estávamos, eu e Oscar, nos cruzando pelo CT da Barra Funda. O local dos profissionais do São Paulo. Diante de elogios de dirigentes, Muricy Ramalho, jogadores, companheiros de base, seria inevitável. Mas a narração termina por aqui, e dá lugar à análise. Análise, não palpite, por favor!

Oscar, como já foi dito acima, tem 17 anos recém-completados. Não era hora de estar adquirindo ritmo de jogo, espírito de competição, levando entradas maldosas de jovens que atuam em times pequenos e gostariam de estar em seu lugar? É verdade que as categorias de base servem, cada vez mais, para menos coisas. Prova disso: o prodígio nem sequer passou pelos juniores do São Paulo. Mas o salto pode ter sido resultado de pensamentos conflituosos entre diretoria e comissão técnica. Juvenal Juvêncio quer ver seus meninos na Barra Funda o mais rápido possível. Muricy Ramalho não gosta de utilizá-los, embora pregue tal qual o maior revelador de talentos das galáxias. Promover um garoto desses só para satisfazer os caprichos de uma relação desgastada? Um risco assumido.

Afinal, o QG da base tricolor em Cotia, local mais espetacular do futebol brasileiro em termos de beleza e estrutura, é chamado de CFA (Centro Formador de Atletas). E não cumpre sua função, já que Oscar está sendo formado junto com os veteranos.

Outra questão polêmica é o trabalho de fortalecimento muscular que certamente será feito. É necessário, desde que sem exageros. Dizem que Oscar é diferente, pois sua diferença está justamente na leveza, na capacidade de se movimentar facilmente, de preferir um drible a um tranco... Transformá-lo num tanque seria torná-lo comum, ordinário, sem graça.

Trabalhar a cabeça de Oscar também é importante. O menino nem precisa ir muito longe para se lembrar de meias que brilharam na base são-paulina, subiram cheios de pompa e naufragaram. Basta olhar para o lado e ver Sérgio Mota, vítima de sua indolência e da incapacidade de Muricy em se modernizar.

O maior indício de que Oscar está, felizmente, sendo tratado da maneira adequada, é que o pênalti perdido contra o Atlético-PR, que colaborou na eliminação da Copa Sul-Americana, nem teve ecos no Morumbi. Foi esquecido, encarado como um obstáculo que o garoto certamente irá superar. Mais cedo, ou mais cedo, pois os próximos anos devem valorizar demais o CFA. É preciso justificar o investimento e, não tenham dúvidas, Oscar é a aposta número um da diretoria. Não só para justificar, como para recuperar o investimento. Em títulos, em beleza, e em dólares.

Ficha técnica

Nome completo: Oscar dos Santos Emboaba Júnior

Data de nascimento: 09/09/1991

Local de nascimento: Americana (São Paulo)

Clubes que defendeu: São Paulo

Seleções de base que defendeu: nenhuma

 

* Repórter do Diário Lance - Colaborador



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