Gustavo Vargas e Mozart Maragno - 17/11/2007
Rivalidade. Emoção do primeiro ao último jogo. Garotos que, em breve, poderão brilhar nos principais clubes de seus países e do mundo. Mais um título para o Brasil! Foi diante desse contexto que a terceira edição do Sul-Americano Sub-15 de seleções, disputado nas cidades gaúchas de Porto Alegre e Bento Gonçalves, chegou ao fim no último dia 11.
O campeonato, que teve início em 27 de outubro e recebeu um incentivo de US$ 350 mil da Conmebol, foi um prato cheio para aqueles que acompanham futebol de base. Durante pouco mais de duas semanas, as gerações 92 de Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela desfilaram seu futebol pelos gramados do Estádio Passo d’Areia, em Porto Alegre, e do Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos, na serra. Após 26 partidas, a seleção brasileira sagrou-se bicampeã ao superar uruguaios, argentinos e chilenos no quadrangular final. Entretanto, nem tudo foram rosas...
Além do fiasco protagonizado pelo técnico do Brasil, Jorge Silveira, na primeira rodada (assunto abordado na coluna “Ficha Amarela” de 31/10), a competição apresentou outros aspectos negativos. O principal deles foi a escolha do Passo d’Areia como uma das sedes. Com vestiários minúsculos e uma péssima drenagem, o campo do São José-RS – coincidentemente (ou não) o time do presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto – não pôde abrigar alguns jogos em virtude da chuva. Os mesmos precisaram ser transferidos para o Parque Esportivo da PUC, o que acabou causando constrangimento.
Alheio aos acontecimentos extracampo, o Olheiros faz, a partir de agora, um balanço do que rolou dentro das quatro linhas. Como não poderia deixar de ser, a ênfase será dada à seleção de Luís Guilherme, Gérson, Eron, Coutinho, Wellington, Felipinho e companhia. Uma equipe campeã. Uma equipe, acima de tudo, promissora. (GV)
Campanha brasileira: de contratempos para um final feliz
De menos para mais. Assim pode ser definida a campanha brasileira. A marca registrada da CBF se fez presente, claro. Mas podem nos questionar: “O Brasil tem vencido muita coisa na gestão Ricardo Teixeira”. Alguém já viu um poço de petróleo ou uma jazida de diamantes darem prejuízo? É mais ou menos por aí com relação à produção de jogadores por aqui. Mesmo com erros crassos e pedregulhos no caminho, a coisa caminha com certa tranqüilidade. Vejamos jogo a jogo, então, o que realizou a vitoriosa sub-15 do Brasil:
Brasil 1 (0) x 0 (3) Peru (BRA – Coutinho, aos 36’ do PT)
Perder por três gols a zero na estréia, em casa e numa competição sul-americana, é, praticamente, uma tragédia. Perder quando não se toma gols e ainda se faz um, o cúmulo do bizarro. Mas foi isso que aconteceu na primeira partida dos anfitriões. Uma má jornada, que teve o solitário Coutinho como autor do gol e nos apresentou o ótimo peruano Arroe. O brinde foram as quatro (!) substituições de Jorge Silveira, que resultaram em inversão dos pontos e saldo negativo, via decisão absolutamente amparada na regra, da Conmebol. Os detalhes técnicos e táticos deste duelo ficaram (e sempre ficarão), inevitavelmente, em segundo plano.
Brasil 5 x 0 Equador (BRA – Coutinho, aos 14’ do PT e aos 46’ do ST; Eron, aos 24’ do PT; Gérson, aos 20’ do ST e Guilherme Morano, aos 41’ do ST)
Mordido e motivado, como não poderia ser diferente, o Brasil entrava em campo para o que já era uma primeira decisão. Marcando a saída de bola equatoriana, logo fez o placar, ao passo que anulava os destaques tricolores: o habilidoso meia De la Cruz e o oportunista atacante Celi. Em nenhum momento os brasileiros foram pressionados e o resultado se deu naturalmente, para alívio do pressionado Jorge Silveira e dos jogadores. Coutinho, mais uma vez, roubou a cena.
Brasil 2 X 1 Venezuela (VEN – Aristeguieta, a 1’ do PT; BRA - Gérson, aos 15’ do ST e Guilherme Morano, aos 30’ do ST)
Ao entrar de forma sonolenta (o pós-goleada é sempre perigoso!), os meninos brasileiros acabaram por complicar um jogo que poderia ser fácil. Um gol rapidamente tomado e muito suor para virar a duríssima peleja. A partida foi realizada no campo da PUC, em Porto Alegre, e o bom número de torcedores já vaiava os locais quando estes fizeram os gols, para desafogo e desabafo geral. A classificação estava encaminhada.
Brasil 2 X 1 Uruguai (URU – Brugman, aos 26’ do PT; BRA - Wellington, aos 27’ do PT e Felipinho, aos 31’ do PT)
O resultado anterior, de derrota do Equador, deixara Brasil e Uruguai classificados, ficando por decidir apenas as colocações do Grupo A. Em um 1º tempo eletrizante - entre as duas melhores equipes do torneio, aliás - os uruguaios estiveram absolutamente bem plantados, como de praxe, e investiram nas saídas rápidas. Não contavam era com um empate relâmpago brasileiro, que modificou a história da partida e permitiu a virada ainda num instante de “tonteira” cisplatina. O jogo marcou pelo gol de Felipinho, que a partir daí cresceu muito de produção. O placar final, de qualquer forma, ficou bom pra todo mundo.
Brasil 3 X 1 Argentina (BRA – Felipinho, aos 7’ do PT; Gerson, aos 22’ do PT e Fernando, aos 5’ do ST; ARG - Rotondi, aos 31’ do ST)
A fase final reservou um super-clássico mundial logo na 1ª rodada. Salienta-se que a mediana equipe Argentina até foi bastante guerreira, porém a hierarquia individual se fez presente. Um belo gol do ambidestro Felipinho – mais uma vez num chute seco e preciso de canhota – e outro tento do zagueiro Gérson, em falha clamorosa do atrapalhado goleiro Mariano Vera, praticamente sepultaram as chances argentinas na partida. O talentoso camisa 10 Matías Sosa, ainda tentou incomodar a defesa brasileira com suas jogadas insinuantes, entretanto era pouco pra mudar a história do confronto. Três pontos fundamentais na conta brasileira rumo ao título.
Brasil 1 X 2 Uruguai (URU – Gallegos, aos 22’ do PT e Polenta, aos 44’ do PT; BRA – Wellington, aos 35’ do PT)
A melhor e mais nervosa partida da competição. Muita emoção nos mais de 90 minutos jogados. Efusiva comemoração uruguaia, que fez o site da Conmebol, inclusive, se referir ao episódio como um “Maracanazinho”. Para tanto, a mesma receita, só que com um final diferente. Muita consistência defensiva e aposta no “trio de ouro”: Gallegos, Barreto e Mezquida. O jaqueta sete Gonzalo Barreto, especialmente, fez jogo magistral. Mesmo sentindo fortes dores, após grave torção no tornozelo, incomodou muito os brasileiros com suas arrancadas e na inteligência em cadenciar quando necessário. Vitória merecida, e o título caminhava para Montevidéu.
Brasil 3 X 0 Chile (BRA – Felipinho, aos 36’ do PT; Belchior, aos 11’(penal.) do ST e Matheus Carvalho, aos 43’ do ST)
Para os brasileiros, uma partida de 180 minutos. Bem mais difícil que conseguir o folgado placar de três a zero, foi torcer pela derrota uruguaia para os argentinos, logo a seguir. Com Belchior no lugar do Fernando, a fluência na saída de bola melhorou consideravelmente. Matheus Carvalho no de Guilherme Morano, nova cara ao ataque, muito mais leve e talentoso. Resultado protocolar. Cabia, agora, assistir ao clássico que decidiria o título. Empate ou vitória uruguaia, caneco pra celeste. Vitória argentina, Brasil com o bi. E a entusiasmada “secada” surtiu efeito (com direito a vários “Ar-gen-tina!”). Matías Sosa e Mauricio Aubone fizeram gols “brasileiros” pela 1ª e, quem sabe, única vez. Festa verde e amarela em Porto Alegre! (MM)
Futuro canarinho: os diamantes de Jorge Silveira
Dos 20 jogadores convocados por Jorge Silveira, apenas o goleiro reserva Idimar, do São Paulo, além do zagueiro Jairo e do meia Guilherme Lomazzi, ambos do Goiás, não foram utilizados. O time-base (Luís Guilherme; Bernardo, Gérson, Vinícius, Eron; Fernando, Elivélton; Coutinho, Wellington; Felipinho, Guilherme Morano) iniciou todos os jogos, com exceção de Brasil x Chile, quando Belchior e Matheus Carvalho fardaram como titulares. Vejamos, posição por posição, uma breve análise dessa nova jazida de diamantes canarinho:
Luís Guilherme: a barreira alvinegra
Eleito pela Conmebol como o melhor de sua posição na competição, o goleiro Luís Guilherme mostrou ter futuro. Com defesas importantes e apenas cinco gols sofridos em sete partidas, o atleta, que já treina entre os profissionais do Botafogo, foi o melhor em campo no trunfo diante do Uruguai, na primeira fase. Se continuar evoluindo, Luís – que vem sofrendo assédio do Arsenal, da Inglaterra – tem totais condições de obter mais reconhecimento que o flamenguista Marcelo, titular da meta brasileira no Sul-Americano de 2005.
Eron e Bernardo: a dupla do Galo
Nas laterais, destaque maior para Eron. Aplicado taticamente, o jogador do Atlético-MG teve ótima contribuição ofensiva pelo flanco esquerdo, e deixou sua marca na goleada sobre o Equador. Já o seu companheiro de clube, o destro Bernardo, não comprometeu, mas foi muito mais discreto. Os reservas Danilo (utilizado como meia no segundo tempo da derrota para os uruguaios no quadrangular final) e Jéferson pouco participaram da campanha.
Gérson e Vinícius: os pilares da defesa
Capitão do time e autor de três gols, o zagueiro central Gérson foi um dos nomes do certame. Imponente e com uma maturidade fora do comum para jovens de sua idade, o gremista comprovou possuir potencial para marcar época nas seleções de base do Brasil. Juntamente com o quarto-zagueiro Vinícius, do Corinthians – outro que mostrou bons atributos –, ele comandou a defesa menos vazada dentre as dez seleções participantes. O suplente são-paulino Maurício deu conta do recado nos poucos minutos em que esteve em campo.
Fernando e Elivélton: muita vontade, pouco brilho
Ao contrário do que ocorrera nas edições passadas, quando Denílson (2004) – hoje no Arsenal – e Bernardo (2005) apareceram de forma impactante, os volantes da seleção não brilharam. Tanto Fernando (Grêmio) quanto Elivélton (Corinthians) demonstraram limitações e menos potencial que o reserva Belchior, por exemplo. Espécie de 12º jogador, o garoto do Vasco entrou no decorrer de todos os jogos e, ao ser escalado como titular contra o Chile, fez bonito: de pênalti, marcou o segundo gol da tranqüila vitória brasileira.
Coutinho e Wellington: entrosamento e qualidade
Os meias não decepcionaram. Embora tenha atuado na função que deveria ter sido ocupada pelo não convocado Nicão (destaque do Mirassol), o abusado canhotinho Wellington, atleta do Fluminense, evoluiu com o decorrer das partidas, notabilizando-se como um importante coadjuvante de Philippe Coutinho. Com belos gols, assistências e imensurável qualidade técnica, Coutinho foi o principal destaque individual do campeonato e tornou-se alvo do Real Madrid, sendo tratado na Espanha como o “novo Messi”.
Felipinho e Guilherme Morano: faltou Neymar
Além de Nicão, outra ausência sentida – e inexplicável – foi a do santista Neymar, que seria, indubitavelmente, o companheiro ideal para o promissor Felipinho. O lépido atacante do Internacional terminou a competição em alta, ao contrário de Guilherme Morano, que, após um bom início, caiu de rendimento na reta final. Artilheiro do Campeonato Paulista Sub-15 pela Portuguesa, Johnathan decepcionou, enquanto Matheus Carvalho deixou a impressão de que poderia ter sido mais utilizado por Jorge Silveira.
Jorge Silveira: do inferno ao paraíso
Somados a esses vacilos na convocação, Silveira ainda cometeu outros equívocos, como, por exemplo, a mal-fadada substituição de Coutinho pelo lateral Danilo na derrota para o Uruguai. Mesmo assim, o saldo do técnico brasileiro acabou sendo positivo, não só pelo título conquistado, mas também pela louvável volta por cima dada após a supracitada pixotada diante dos peruanos. De agora em diante, o futuro é que dirá qual será o impacto que ele e seus comandados causarão no futebol. Potencial existe. (GV)
Eles também brilharam...
O Sul-Americano Sub-15 apresentou excelentes valores, muito além dos brasileiros. Praticamente todas as seleções trouxeram pelo menos um grande e promissor talento. Focamos-nos naqueles que mais depositamos confiança em um futuro próximo, com o perigo de deixarmos para trás gente de qualidade, sobretudo de seleções que não chegaram à fase final e, portanto, tiveram menos condições de se exibir. Pois, então, vamos aos eleitos:
(URU) Salvador Ichazo – O goleiro uruguaio mostrou segurança em praticamente todos os tipos de bolas, embora tenha falhado no 2º gol da Argentina.
(URU) Diego Polenta – Líder, imponente e técnico. Se já não bastasse isso, o zagueiro e capitão celeste ainda arrisca algumas subidas e foi perigosíssimo nas bolas paradas.
(URU) Sebastián Gallegos – O camisa 10 tem condições honrar a tradição de Pedro Rocha, Francescoli e Recoba. Meia cerebral.
(URU) Gonzalo Barreto – Um azougue. Rápido, driblador e incansável. Tudo que um zagueiro ou volante não quer ver pela frente. Quem viu, sofreu.
(URU) Nicolas Mezquida – O “Xororó” celeste foi o goleador do torneio. Porém, mostrou mais que isso. Talento para acompanhar o raciocínio de Barreto e Gallegos, por exemplo. Nada mal.
(ARG) Ignacio Ameli – O sobrinho pode ser muito melhor que o tio. O fato de respirar já o coloca na frente, inclusive.
(ARG) Matias Sosa – Enganche típico da escola argentina. Muito habilidoso. Um virtuose, abusado. Joga futsal na grama. Se vingar, será um bálsamo para uma posição em falta desde Riquelme.
(CHI) Claudio Sepúlveda – Volante de boa técnica. Impressionou pela personalidade.
(CHI) Camilo Peña – Nem sempre foi titular. Entretanto, não há como negar que o meia do Universidad Católica tem uma canhota muito talentosa.
(EQU) Jonathan De la Cruz – O “fantasista tricolor” fez muito dura a vida dos adversários. Mais um promissor meia-esquerda que apareceu nos gramados gaúchos.
(EQU) Hernán Luis Celi – Centroavante de técnica apurada. Protagonizou o mais belo gol da competição: uma acrobática bicicleta que rodou o mundo.
(PER) Joazhiño Arroe – O garoto prodígio do Siena-ITA não estava no melhor da forma. Mas, do pouco tempo que jogou, deixou ótima impressão. (MM)
O 11 ideal
Com a autoridade de quem acompanhou um grande número de partidas, o Olheiros montou sua seleção da competição. Para privilegiar a qualidade técnica, o time foi escalado no esquema 3-4-1-2 e precisou sofrer algumas pontuais improvisações. Confiram:
Ichazo (URU), Gérson (BRA), Polenta (URU), Ameli (ARG); Barreto (URU), Sepúlveda (CHI), Gallegos (URU), Eron (BRA); Coutinho (BRA); Felipinho (BRA), Mezquida (URU). Técnico: Jorge Silveira (BRA).
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