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CSP'09: minha primeira Copinha

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Gustavo Vargas - 31/12/2008

Nos dias de hoje, a Copa São Paulo pode não possuir o mesmo charme do passado. Para muitos, a principal competição de futebol de base do Brasil tornou-se uma festa de empresários, cujo assédio aos jovens valores que surgem no país vem aumentando cada vez mais. Realmente, há verdade em tudo isso. O que não podemos deixar de admitir, no entanto, é o fato de ela ainda ser capaz de revelar nomes talentosos e prodigiosos. Algo que, com certeza, se repetirá em 2009.

Um dos garotos que promete brilhar na 40ª edição da Copinha é Marquinhos, do Internacional. Artilheiro do último Campeonato Brasileiro Sub-20, com oito gols, o meia-esquerda buscado no Passo Fundo, clube do interior gaúcho, terá a missão de vestir a camisa dez do Colorado, tetracampeão do certame. E foi ele, Marquinhos, o escolhido para ilustrar este especial do Olheiros. Uma reportagem que mostrará as dificuldades, os objetivos e os sonhos de um guri que, aos 18 anos, estará nos gramados paulistas pela primeira vez.

De Selbach ao Vermelhão da Serra

Nascido em 21 de julho de 1990, Marcos Gabriel do Nascimento sempre respirou futebol. Aos sete anos, incentivado pelo pai, Osmar, ele ingressou numa escolinha de sua cidade natal, Selbach. Foi lá que deu seus primeiros chutes e passou a impressionar positivamente aqueles que o acompanhavam. Veloz e habilidoso, esbanjava qualidade na perna canhota, e, como conseqüência, despertou a atenção de alguns clubes de futsal da região. Por muito pouco, não trocou de esporte...

Após passagens por Sercesa e Pinheiros, ambos de Carazinho, Marquinhos disputou o estadual de juvenis pelo Grêmio Esportivo América, de Tapera, em 2005. Nas quadras do ginásio João Goulart, ganhou a admiração dos torcedores e comprovou que seu talento independia do tamanho da bola ou do tipo de piso. Embora possuísse respaldo para continuar no futsal, optou, porém, por voltar aos gramados e tentar a sorte no Juventude, em Caxias do Sul, no ano seguinte.

Ao corresponder em testes no Alfredo Jaconi, o guri teria a oportunidade de buscar espaço na equipe juvenil do alviverde caxiense. Contudo, não se sentindo preparado para o desafio e as mudanças de rumo que sua vida poderia ter, decidiu voltar para casa. “Eu era muito novo e muito apegado a minha família e aos meus amigos. Achei que não estava pronto, e não sentia motivação alguma em ficar lá. Por isso, não permaneci”, afirma, sem demonstrar arrependimento algum.

Uma segunda oportunidade veio no início de 2007. Com sua antiga escolinha, Marquinhos participou da Copa de Talentos, promovida pelo Esporte Clube Passo Fundo, no estádio Vermelhão da Serra. O torneio sub-17 contou com a participação de times de vários municípios da Região Norte, e Selbach chegou à decisão. Apesar de não ter evitado a derrota para o anfitrião e campeão Vila Nova, o meia ganhou os troféus de artilheiro e destaque individual. De quebra, foi convidado a fazer parte do elenco que disputaria o Gauchão de Juvenis.

Uma temporada brilhante

Amadurecido, o garoto Marcos Gabriel decidiu encarar a bronca. Em maio, desembarcou em Passo Fundo, onde moraria na concentração do Vermelhão. Longe de casa. Longe de seus familiares. O ex-supervisor das categorias de base do clube, José Ribeiro de Vargas, recebeu a incumbência de buscá-lo em Selbach. “Disse, durante a viagem, para ele não deixar de agarrar a oportunidade e que, quando fosse famoso, não esquecesse de quem o estava ajudando”, salienta Ribeiro.

E Marquinhos não decepcionou. Referência da equipe comandada pelo técnico Juarez Vilela, liderou o tricolor no estadual. Diante do Progresso, de Pelotas, em jogo válido pela segunda fase, marcou quatro golaços na goleada de 5 a 0. O último deles, olímpico, coroou a irretocável atuação. Após aquele dia, o camisa dez passou a ser observado e assediado por Grêmio, Internacional e Santos. Nem mesmo a eliminação na terceira fase acabou com o seu prestígio.

Autor de 15 gols na competição, ele destaca que os fatores extracampo influenciaram diretamente no seu desempenho. “O Rodighiero (Ivanir, vice-presidente de futebol e fã confesso) proporcionou todas as condições para que eu me sentisse bem. Fiquei à vontade, como se estivesse em casa”, enfatiza, deixando claro que em nenhum momento ficou deslumbrado com o assédio do Peixe e da dupla Gre-Nal: “O sonho existia, mas meu pensamento estava totalmente voltado ao Passo Fundo”.

Quis o destino que o sempre atento Inter ganhasse a disputa e, após negociação intermediada por Fernando Otto – empresário e representante do argentino Andrés D’Alessandro –, levasse Marquinhos para o Beira-Rio no final de novembro. Uma recompensa consagradora para o jovem selbachense, que, em poucos meses, trocava o tortuoso futebol do interior gaúcho pelo alojamento de um dos principais clubes da América Latina. E que, tão logo chegasse à capital, já teria um desafio: a Copa Santiago de Futebol Juvenil.

Dificuldades de adaptação

A trajetória de Marquinhos no Internacional iniciou de forma conturbada. Em janeiro deste ano, enquanto se preparava para a Copa Santiago, lesionou a virilha e, num golpe de azar, acabou cortado da viagem. Em seguida, dias antes da Punta Cup, perdeu a vaga no onze inicial ao sentir uma lesão muscular no músculo posterior da coxa esquerda, reflexo de mudanças bruscas na carga de atividades físicas – no Vermelhão da Serra, os juvenis treinavam em apenas um turno.

Longe da melhor forma, o garoto recebeu poucas oportunidades de Osmar Loss, técnico dos juniores, ao longo do primeiro semestre. “Até o meio do ano, eu não estava sendo aproveitado. Cheguei a fardar em algumas partidas do Gauchão de Juniores, mas nunca como titular”, lamenta, admitindo que as dificuldades de adaptação quase sepultaram o sonho: “Em vários momentos, pensei em desistir. Queria voltar para Passo Fundo, foi ali que me acolheram muito bem”.

A saudade da família e da namorada – a estudante Bruna, de 17 anos – era amenizada com visitas nos finais de semana. Pelo fato de não estar atuando com regularidade, seja por opção ou lesão, as folgas eram constantes. “Sempre que possível, eu ia para Selbach buscar forças. Em momento algum, meus familiares, minha namorada e meus amigos deixaram de me dar apoio. Minhas forças vêm de casa. Como disse, sempre fui (e ainda sou) bastante apegado à família”, reconhece.

Tudo começou a mudar a partir de julho, durante a Taça BH de Futebol Júnior. Motivado, Marquinhos cativou a comissão técnica e, mesmo vindo do banco de reservas, teve boa participação nos gramados mineiros. A gratificação chegaria nos meses seguintes, com a titularidade em alguns jogos da Copa Lupi Martins, competição profissional que o Inter disputou com o time sub-20. Gols e atuações convincentes contra São Paulo, de Rio Grande, Sapucaiaense e Brasil, de Farroupilha, deram moral a quem, enfim, ganhava confiança.

A afirmação de quem batalhou

Na primeira quinzena de novembro, o Internacional rumou à Bahia para a disputa da segunda edição da Porto Seguro Cup. Logo na estréia, frente ao Fluminense, Marquinhos lesionou o tornozelo e ficou de fora do restante do certame, conquistado pelo Colorado. Assim, por não reunir condições físicas ideais, iniciaria o Campeonato Brasileiro Sub-20 – último torneio de base de 2008 – entre os reservas. Provavelmente, nem ele tinha noção daquilo que estava por vir...

Diante do Flamengo, na segunda rodada do Brasileiro, o canhotinho substituiu Léo na etapa complementar e, improvisado no ataque, marcou três gols na goleada de 4 a 1. Contra o Sport, na partida seguinte, assumiu a titularidade e voltou a balançar as redes. Aos poucos, foi cavando o status de estrela da equipe, algo consolidado na vitória sobre o Santos, já pelas quartas-de-final. Com belíssima atuação e mais dois gols, assumiu a artilharia da competição para não mais largar.

A eliminação nas semifinais não abalou Marquinhos: seu desempenho rendeu elogios de Osmar Loss. “Sabíamos do potencial dele desde o início. O Marcos já tinha feito bons jogos na Lupi, e a expectativa em torno ele era muito grande”, diz o técnico colorado, explicando que escalou-o no ataque em virtude de carências ofensivas do elenco. Na Copa São Paulo, contudo, o garoto será utilizado como meia, e, de acordo com Loss, “terá a responsabilidade de ser a referência”.

O selbachense afirma estar preparado para vestir a camisa dez – que, teoricamente, seria de Tales, convocado para a seleção brasileira sub-20 – e causar impacto. “Estou pronto para tudo. Aliás, tenho que estar pronto. Sempre sonhei em disputar uma Copinha, e a oportunidade finalmente chegou”, declara, otimista e ansioso. Principal favorito do grupo K, sediado em São José dos Campos, o Inter enfrentará o anfitrião São José, o Noroeste, de Bauru, e o Araguaína, do Tocantins.

Obviamente, chegar aos profissionais também faz parte dos objetivos de Marquinhos, embora ele não esconda que, hoje, seu principal desejo é arrebentar nos gramados paulistas. E, claro, presentear os colorados com o pentacampeonato: “Se eu não pensasse em título, fatalmente não jogaria aqui”. Personalidade de um guri que sonhou, batalhou e, graças ao seu esforço, venceu. Um guri que, a partir de 3 de janeiro, estará escrevendo um novo e importante capítulo em sua história. Quem sabe, na história do Internacional.

Marquinhos por...

... Ari Machado, cronista esportivo de Passo Fundo:

“Foi um dos melhores jogadores que eu vi no Vermelhão da Serra. Técnico, veloz e sabe usar muito bem o corpo. Possui um grande futuro pela frente, pois, atualmente, o futebol exige força física e versatilidade, o que ele tem de sobra. É, acima de tudo, um menino simples e humilde”.

... Gabriel Palaoro, companheiro de equipe no Esporte Clube Passo Fundo:

“Dentro de campo, o Marcos é um cara compenetrado, diferencial de qualquer time. Joga para a equipe, sempre pensando no companheiro. Fora dele, segue sendo o mesmo: desde que foi para o Inter, não mudou em nada. É humilde, e isso faz dele um grande atleta e uma grande pessoa”.

... Giscard Salton, diretor das categorias de base do Inter:

“Não tenho dúvidas de que o Marquinhos é um talento nato, cuja qualidade como jogador, somada à infra-estrutura proporcionada pelo Sport Club Internacional, fará dele um craque. É um garoto humilde e correto, de boa índole e totalmente adequado ao sistema de futebol do clube”.



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